Move2LowC: utilizar tecnologias de conversão de biomassa em biocombustíveis e co-produtos

Conversamos com Manuel Gil Antunes, Administrador Delegado da A4F, Algae for Future sobre o Move2LowC e a importância do apoio dos fundos europeus para a concretização deste projeto inovador e estratégico.

Manuel Gil Antunes | Administrador Delegado da A4F

“O projeto Move2LowC mobiliza um conjunto de agentes que desempenham um papel liderante na Indústria Química e na Investigação Aplicada, em Portugal. E mobiliza -os em torno de uma Agenda de Inovação ambiciosa, que tem como objetivo oferecer novas soluções de mobilidade (Move) com baixas emissões de Carbono (LowC).

O projeto está focado tanto na utilização de novos recursos e novas fontes de matérias primas (biomassa aquática (microalgas), biomassa florestal residual e efluentes industriais), como no desenvolvimento de novas aplicações de energia renovável para a mobilidade, em situações em que a mobilidade elétrica apresenta limitações. É o caso dos transportes pesados de mercadorias e de passageiros, do transporte marítimo e da aviação.

Envolvendo tanto grandes empresas industriais, como pequenas empresas inovadoras e uma grande parte do Sistema Científico Nacional, com Universidades, Institutos Politécnicos e Laboratórios de Investigação e Transferência de Tecnologia, de referência e localizados em diferentes regiões do País, o Projeto Move2LowC está inteiramente alinhado com os Grandes Objetivos que unem Portugal e a Comissão Europeia nas suas agendas de Inovação, Transição Climática, Transição Energética e Economia Circular.

O cofinanciamento do COMPETE 2020 veio permitir a concretização desta agenda de Inovação ambiciosa, que, sem este apoio, não teria condições de ser executada pelas empresas e Instituições associadas no Consórcio.

A concessão do incentivo veio assim possibilitar que vários parceiros trabalhem de forma estratégica e integrada, no desenvolvimento de tecnologias de produção e refinação de biocombustíveis que possam ser implementadas em larga escala e potenciar as maiores empresas de transporte rodoviário e aéreo em Portugal.

O desenvolvimento deste projeto contribuirá para a criação de estratégias de dinamização coletiva e a qualificação da I&D empresarial. Complementarmente servirá como exemplo de demonstração de uma estratégia ímpar de revitalização e requalificação de uma zona industrial em depressão, criando emprego altamente qualificado. Estamos convictos que o Projeto Mobilizador Move2LowC deixará, certamente, uma “pegada” singular na mudança do paradigma da indústria química em Portugal.”

Enquadramento

Quando produzida de forma eficiente e sustentável, a energia da biomassa traz inúmeros benefícios ambientais, económicos e sociais quando comparada com combustíveis fósseis. Com a crescente preocupação e interesse na descarbonização do transporte aéreo e rodoviário, o futuro passa pelo desenvolvimento e utilização de soluções que tragam maior impacto positivo a nível ambiental, social e económico.

O combustível tradicional para aviação é um forte emissor de Gases com Efeito de Estufa e, em geral, bastante prejudicial para o ambiente, tornando tão necessária quanto urgente a evolução para novas soluções de baixo carbono (LowC).

A grande evolução já alcançada em soluções de mobilidade elétrica, afigura-se menos promissora para o setor da aviação e dos transportes pesados coletivos e de mercadorias, sobretudo de longa distância. Para estes setores, o objetivo de atingir a descarbonização até ao nível zero de emissões, só é tecnicamente possível com recurso a biocombustíveis.

Tendo em consideração esta preocupação no setor da aviação, a União Europeia tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos anos um conjunto de iniciativas para promover a descarbonização das infraestruturas aeroportuárias, implicando o uso de BioJetFuels e da interação de tecnologias com reduzidas emissões de carbono, para outras aplicações dentro da infraestrutura aeroportuária.

Por outro lado, a eletrificação dos transportes terrestres não conseguirá atingir todos os veículos – designadamente os veículos pesados de transporte coletivo e de mercadorias em longo curso.

A biomassa e os resíduos representam cerca de dois terços de todo o consumo de energias renováveis na UE. Em Portugal, a biomassa tem sido essencialmente utilizada na indústria da pasta de papel e para aplicações de baixo valor – eletricidade e calor por combustão. Mas existe um enorme potencial para a utilização da biomassa para energia noutros setores.

O Projeto

O projeto Move2LowC, liderado pela A4F, Algafuel, S.A., mobiliza Universidades, Institutos de I&D, PMEs e Grandes Empresas, para cooperarem com o objetivo de aumentar o aproveitamento de biomassa aquática (microalgas), biomassa florestal residual e de efluentes industriais para a produção de biocombustíveis, numa lógica de Economia Circular. Visa ainda diminuir o desperdício, pela redução, reutilização, recuperação e reciclagem dos materiais em vectores energéticos.

Pretende-se utilizar tecnologias de conversão de biomassa em biocombustíveis e co-produtos, através de processos de biorrefinaria, potenciando o know-how do CoLAB Bioref e o dinamismo inovador de PMEs de base tecnológica, à medida que são desenvolvidas tecnologias de produção e refinação de biocombustíveis que possam ser utilizadas, replicadas e comercializadas pelas Grandes Empresas do Cluster de Competitividade representado pela APQuímica, cumprindo o objetivo do Programa de contribuir para a criação de estratégias de dinamização coletiva e a qualificação da I&D empresarial.

Por fim, pretende-se tornar as Grandes Empresas portuguesas de transporte aéreo e rodoviário pesado, em empresas mais sustentáveis, o que as tornará necessariamente mais competitivas no contexto global atual.

Como não é viável a utilização de combustíveis gasosos para aviação e dado que as matérias primas sustentáveis para BioJet derivado de biodiesel ou de outros biocombustíveis líquidos são escassas, urge dar prioridade à utilização dos atuais óleos para biodiesel bem como fontes alternativas de óleos não-alimentares para uso na aviação, após processamento sob a forma de biojetfuel. Esta afetação prioritária torna necessário o desenvolvimento de outros combustíveis, nomeadamente os biocombustíveis gasosos, para aplicação nos transportes pesados coletivos e de mercadorias de longo curso, que não podem recorrer de forma eficiente à mobilidade elétrica no curto-médio prazo.

É este conceito sinérgico e complementar que está na base da combinação das tecnologias, aplicações, produtos e modelos de negócio do Projeto Mobilizador Move2LowC, cuja implementação está dividida em 4 sub-projetos.

Os 4 sub-projetos têm os seguintes objetivos: O primeiro sub-projeto visa implementar um processo de produção de biocombustível para aviação a partir de microalgas, utilizando conversões termoquímicas. O segundo sub-projeto tem como objetivo específico a implementação de um processo de produção de biocombustíveis de aviação por fermentações heterotróficas, utilizando biomassas lenhocelulósicas residuais. No terceiro sub-projeto, o objetivo é a produção de hidrogénio a partir de uma fonte renovável: biogás/biometano ou gás de biomassa, com redução dos custos, através de inovações incrementais e utilização em veículos pesados. Por fim, o quarto sub-projeto visa a produção de gás natural veicular (GNV) 100% renovável sob a forma de biometano (bio-GNC/GNL).

De uma forma global, o projeto procura: 1) possibilitar o aumento da disponibilidade de materiais renováveis para transformar em biojetfuel para a aviação, e 2) conseguir gerar tecnologias competitivas para a produção de combustíveis gasosos (bioH2 e BioCH4) para os transportes terrestres pesados e de longo curso.

 

O Apoio do COMPETE 2020

O projeto, que tem um investimento global de 12.6 milhões de euros, conta com o apoio do COMPETE 2020 no âmbito do Sistemas de Incentivos à Investigação e Desenvolvimento Tecnológico (Programas Mobilizadores), envolvendo um investimento elegível de 8,9 milhões de euros o que resultou num incentivo FEDER de cerca de 4,6 milhões de euros.

19/03/2021 , Por Miguel Freitas
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